O recente movimento do governo Lula em defender o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) acendeu um novo sinal de alerta entre economistas, parlamentares da oposição e cidadãos preocupados com o peso crescente da carga tributária. Em um momento em que o discurso oficial prega justiça social e compromisso com os mais pobres, a insistência em medidas que afetam diretamente o consumo e o crédito levanta dúvidas sobre a coerência da política fiscal adotada pelo Palácio do Planalto.
IOF: um imposto invisível e regressivo
O aumento do IOF atinge em cheio transações cotidianas como operações de câmbio, empréstimos, uso de cartão de crédito internacional e financiamentos. Trata-se de um tributo que, apesar de muitas vezes passar despercebido, impacta desproporcionalmente os cidadãos de menor renda. A defesa enfática da medida por parte do ministro Fernando Haddad, com respaldo do presidente Lula, reacende o debate sobre a seletividade das prioridades econômicas do governo federal.
Mesmo entre apoiadores tradicionais do governo, cresce a preocupação com o efeito cumulativo da tributação indireta sobre o cotidiano da população. O IOF, por sua natureza, não distingue entre classes sociais na hora de incidir sobre o crédito — e seu aumento tende a encarecer produtos financeiros já restritos aos mais pobres, como o financiamento estudantil, o rotativo do cartão e o crédito pessoal.
Discurso inflamado em defesa do aumento
Durante evento em Brasília, Lula e Haddad adotaram um tom mais firme ao justificar o reajuste. O presidente afirmou que “quem pode gastar fora do Brasil pode contribuir mais com o país”, enquanto Haddad ressaltou a “necessidade de ampliar a base de arrecadação para viabilizar o novo arcabouço fiscal”. No entanto, analistas alertam que o argumento do governo esconde o caráter regressivo do IOF e ignora o momento delicado da economia brasileira, ainda fragilizada após sucessivas crises.

Além disso, o governo tem evitado abrir a planilha de impacto social da medida. Qual será o real efeito sobre os trabalhadores que dependem de empréstimos para manter seus pequenos negócios? Ou sobre famílias que planejam viagens para estudar, trabalhar ou buscar atendimento médico fora do país? Essas perguntas permanecem sem resposta clara, enquanto a retórica oficial insiste em justificar o aumento com base em metas fiscais.
Críticas de especialistas e da sociedade civil
Diversos economistas apontam que o aumento do IOF contradiz a lógica de justiça tributária. Para a economista Silvia Matos, do FGV Ibre, “a medida penaliza os consumidores e não ataca os verdadeiros privilégios do sistema tributário brasileiro”. Movimentos sociais e entidades como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) também se manifestaram contra o aumento, alegando que a decisão afeta especialmente jovens, estudantes e trabalhadores que dependem de financiamento e crédito rotativo.

A crítica também parte de organizações do terceiro setor que trabalham com educação financeira. Para o educador Reinaldo Domingues, da ONG Finanças para Todos, “é sintomático que a solução encontrada para fechar as contas venha justamente do setor mais vulnerável: o cidadão endividado”.
Incoerência com promessas de campanha
Durante a campanha eleitoral, Lula reforçou diversas vezes que “os pobres voltarão ao orçamento e os ricos ao imposto de renda”. A proposta de aumentar o IOF, no entanto, parece inverter essa lógica, mirando em uma base de arrecadação que já sofre com juros altos e falta de acesso a crédito. Críticos lembram que o governo ainda não avançou na reforma tributária prometida, mas já sinaliza mais impostos indiretos sobre o consumo.
A dissonância entre promessa e prática tem custado capital político. Em setores mais progressistas da sociedade, a frustração se soma ao ceticismo quanto à condução econômica do governo. A dúvida que paira é: até que ponto o Executivo está disposto a comprometer seus princípios para garantir superávits fiscais e apoio no mercado?
Oposição promete reagir
Parlamentares da oposição, como o deputado Kim Kataguiri (União Brasil-SP), prometeram acionar o TCU e convocar Haddad ao Congresso para explicar a medida. Segundo Kataguiri, “o governo quer fazer caixa às custas do cidadão comum enquanto poupa setores privilegiados e posterga reformas estruturais”. Já a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) classificou o aumento como “covarde e desconectado da realidade brasileira”.
A movimentação legislativa pode ganhar força à medida que mais parlamentares percebem o potencial desgaste político que a medida pode causar em suas próprias bases eleitorais. Mesmo partidos da base aliada demonstram desconforto com o reajuste.
Governo prioriza arrecadação em detrimento da coerência
Ao insistir no aumento do IOF, o governo Lula passa um recado claro: a arrecadação imediata parece falar mais alto do que o compromisso com uma reforma tributária justa. Enquanto o discurso mira os mais ricos, as ações continuam pressionando a base da população. Se esse padrão se mantiver, o desgaste político tende a crescer — não por falhas de comunicação, mas por decisões que falam por si mesmas.
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Fonte externa: Valor Econômico
